13 de abril de 2025

Hideshi Hino | O autor mais polêmico do horror japonês

Ilustração colorida do mangá Panorama do Inferno, de Hideshi Hino. No centro, o protagonista de terno verde senta-se em um piso de tatame, segurando uma tela. Ele possui uma aparência pálida e uma expressão intensa e sombria. Ao fundo, as paredes estão repletas de quadros que exibem figuras surreais e expressões de angústia, características do estilo artístico de terror psicológico do autor.
Panorama do inferno de Hidehi Hino

  Hideshi Hino é um renomado mangaká de terror, desenhando desde o final dos anos 60, possui mais de 200 trabalhos impressos.  Durante os anos 80 ele viveu seu período de maior popularidade quando se consolidou como um dos principais autores de terror das revistas infantis japonesas.  Esse clássico mangaká já foi citado por Junji ito em varias entrevistas como sendo uma de suas maiores influencias.

   Filho de trabalhadores imigrantes japoneses, Hideshi Hino nasceu em 19 de abril de 1946 na China, na região da Manchúria, que na época estava sob domínio japonês. Quando o Japão se rendeu no final da Segunda Guerra Sino-Japonesa,  e o autor era apenas uma criança, sua família precisou fugir do pais devido as retaliação violentas dos civis chineses aos japoneses.  O autor relata que quase morreu durante a viagem conturbada para o Japão.

  Publicou seu primeiro trabalho aos 21 anos na revista Com, de Osamu Tezuka em 1967.  No inicio de sua carreira o autor produzia mangás de comédia e sua transição para os quadrinhos de terror se deu um pouco mais tarde, em 1969 quando publicou Zouroku no Kibyo ("A estranha doença de Kibyo"), uma obra foi um marco na carreira

  Suas historias são permeadas de elementos autobiográficos como, por exemplo, seu avô, que era membro da Yakuza, ou seu pai, que criava porcos e tinha uma tatuagem de aranha nas costas.  A destruição do Japão pós-guerra marcou profundamente a forma de pensar do autor e influenciou bastante o seu trabalho.

  Confira nessa postagem os melhores mangás do Hidehi Hino já publicados no Brasil (alguns extremamente raros) e que todo fã de mangás de terror precisa conhecer  e no final as polêmicas envolvendo seus filmes e a treta com o ator Charlie Sheen.

Panorama do Inferno

Duas capas lado a lado do mangá Panorama do Inferno, de Hideshi Hino. À esquerda, a edição brasileira da editora Conrad exibe um fundo totalmente texturizado em tons de vermelho e traços abstratos e sombrios com o título centralizado em letras pretas. À direita, a edição da Sendai Editora tem fundo preto com o título em verde e vermelho sangrento; a ilustração destaca mãos abrindo a cabeça de um homem sorridente, revelando grandes olhos e criaturas monstruosas com dentes expostos saindo de dentro dela.
 Panorama do Inferno | Na direita a capa da edição brasileira publicada pela Conrad em 2006, ao lada a capa da edição portuguesa publicada pela Sendai Editora


  Na trama acompanhamos um bizarro pintor obcecado pelas cor de sague e em retratar sangrentos retratos do inferno, nosso protagonista passa a maior parte do tempo em seu quarto fechado e escuro e cercado de quadros com paisagens infernais. Esse pintor está trabalhando em sua grande obra prima, o trabalho de uma vida inteira. O panorama do inferno apocalíptico, representando o fim do mundo.

  Com uma trama que quebra da quarta parede, o personagem principal conversa com o leitor a todo momento. Quando esse pintor sem nome, que é uma representação do próprio Hideshi Hino, decide nos mostrar seus quadros vemos as cenas mais bizarras que o mangaká conseguiu imaginar. Cada capitulo é mostrado um novo quadro e junto da explicação do pintor sobre a obra apresentada temos flashbacks que mostram a realidade absurda do que ele viu naquele lugar onde apenas a insanidade sobrevive.

Página de mangá em preto e branco com três painéis e estética de terror. O painel superior mostra um pintor pálido de olhos arregalados em seu ateliê escuro, segurando uma paleta e cercado por quadros macabros; uma boneca está pendurada pelo pescoço em uma corda no teto. O painel inferior esquerdo destaca o rosto do homem aproximando o dedo da chama de uma vela. O painel inferior direito mostra um pincel próximo a uma pintura expressionista de rostos deformados em meio a chamas. Os balões trazem diálogos em português.
Panorama do inferno de Hidehi Hino

  Durante o mangá no meio de toda bizarrice pintor também nos conta sobre sua vida e a historia da sua família, durante esses momentos o autor do mangá Hideshi Hino nos conta sobre sua própria história de vida e de sua família.

  Panorama do inferno (Jigokuhen: Aru Jigoku Eshi no Kokuhaku no original) foi publicado no Japão em 1983 e é completo em volume único.  Essa obra foi desenvolvida originalmente por Hideshi Hino como uma despedida do mundo dos mangás por motivos pessoais mas o autor continuou a desenhar depois dela.

Edit: A história Panorama do Inferno foi republicada em Pesadelos Completos, edição que algumas das mais impactantes histórias do mangaká

O Garoto Verme

Painel de mangá em preto e branco do livro O Garoto Verme, de Hideshi Hino. No centro, o menino Sanpei senta-se encolhido no chão, abraçando os joelhos e encarando o leitor com olhos esbugalhados. Ele está em um lixão cercado por entulho, incluindo um grande cano de concreto, pneus, uma bicicleta velha, um relógio de parede e um boneco Daruma. Gatos aparecem escondidos dentro do cano e uma fileira de formigas caminha pelo chão em primeiro plano.
O Garoto Verme de Hideshi Hino


  O Garoto verme (Dokumushi Kozou no Original) é um mangá Body Horror (um subgênero do terror que foca na transformação grotesca, deformação ou mutilação do corpo humano) que faz uma adaptação muito livre de A Metamorfose de Franz Kafka, foi publicado originalmente no Japão em 1975 e é completo em apenas um volume.

Página de mangá em preto e branco dividida em três painéis, apresentando uma estética de horror clássico. O painel superior mostra uma figura em vestes médicas interagindo com um personagem central que está envolto em ataduras. Os painéis inferiores focam na expressão facial do personagem e em uma reação física intensa, acompanhada por onomatopeias em japonês que enfatizam o tom dramático da cena.
O Garoto Verme de Hideshi Hino




  O mangá conta a historia de um garoto solitário e incompreendido chamado Sanpei que é perseguido na escola e muito maltratado em casa, seus únicos amigos são os animais abandonados, insetos e até cobras que ele cria em seu esconderijo secreto em um lixão abandonado.  Mas quando esse menino é picado por um estranho verme, sua vida muda para sempre. O mangá não pega leve no terror do Sampei sofrendo uma grotesca transformação que afetará não só seu corpo como sua mente.

Painel de mangá em preto e branco do livro O Garoto Verme, de Hideshi Hino. Mostra o momento em que Sanpei se transforma em um verme gigante. Em primeiro plano, uma criatura semelhante a uma lagarta com cabeça humana e olhos esbugalhados rasteja para fora da cama. Ao fundo, sobre o travesseiro, repousa a casca vazia do seu antigo corpo humano, que se abriu ao meio. Linhas de ação verticais e onomatopeias japonesas enfatizam o impacto da cena.
O Garoto Verme de Hideshi Hino

  Um mangá é psicologicamente pesado.  Mesmo não se encaixando nos padrões da sociedade e sendo  desprezado e odiado devido a sua aparência e aos seus gostos, Sampei é um menino inocente e sonhador apesar de tudo.  Acompanhamos a trama através de seu ponto de vista e é impossível não sentir pena e raiva das pessoas normais.  Vivendo sua vida com quase nenhum momento de felicidade nosso protagonista sempre foi destinado a tornar-se um pária, transformado ou não.

  Quando acometido por uma doença terrível e inexplicável ele se transformará fisicamente no monstro nojento que sempre foi aos olhos de todos, nisso sua família aproveitará essa oportunidade perfeita de se livrar dele... E nós acompanhamos esse pesadelo até o final.

Capa brasileira do mangá O Garoto Verme, de Hideshi Hino, publicada pela Zarabatana Books. O fundo exibe uma sala tradicional japonesa em tons de verde-escuro e preto. No centro, uma criatura monstruosa em forma de lagarta vermelha e brilhante, com dentes afiados e grandes olhos brancos, devora um pequeno corpo humano. Em primeiro plano, na parte inferior, quatro membros de uma família expressam pavor e desespero. O título "O Garoto Verme" está escrito no topo em letras brancas e vermelhas estilizadas.
O Garoto Verme publicado no Brasil em 2008 pela editora Zarabatana Books

    O Garoto Verme foi publicado no Brasil em 2008 pela editora Zarabatana Books, essa edição é muito rara de se encontrar.

A serpente vermelha

Duas capas lado a lado do mangá A Serpente Vermelha, de Hideshi Hino. À esquerda, a edição brasileira da Zarabatana Books exibe um fundo gradiente de vermelho para amarelo; uma mulher de vestes vermelhas está deitada enquanto serpentes pretas surgem ao seu redor, sob o olhar assustado de um menino de quimono roxo. À direita, a edição original japonesa traz um fundo preto com o título em letras amarelas e vermelhas; a ilustração detalha uma grande serpente vermelha quadriculada que se contorce em meio a uma pilha grotesca de corpos deformados, crânios, insetos e membros humanos.
 A serpente vermelha | Na direita a capa da edição brasileira publicada pela Zarabatana Books em 2007, ao lada a capa da edição original japonesa

  Segundo Hideshi Hino parte da inspiração para essa obra vem de um exame retal que lhe causou uma dor insuportável. Esta visita ao médico ocorreu porque ele sempre encontrava sangue em suas fezes. No final, tudo foi devido ao consumo excessivo de bebida.  Na trama o autor se inspira em experiências da própria infância, incluindo uma criação isolada e com alegorias ao Japão pós-guerra, com os horrores desencadeados pelas bombas atômicas jogadas em Hiroshima e Nagazaki. Todas as consequências das bombas são mostradas ali: seres deformados mental e fisicamente, montanhas de cadáveres, doenças desconhecidas e paisagens arrasadas.

Página de mangá em preto e branco com três painéis horizontais do livro A Serpente Vermelha, de Hideshi Hino. Em todos os quadros, um menino desajustado de quimono claro e olhos muito arregalados caminha assustado por uma floresta densa com árvores de troncos grossos e raízes expostas. Ao fundo, vê-se a estrutura externa de uma grande casa tradicional japonesa de madeira com telhado detalhado. Os balões de diálogo estão em branco.
A Serpente Vermelha de Hideshi Hino


  A trama nos é narrada por um menino desajustado que vive com sua família disfuncional em uma casa enorme e isolada, cercada por uma floresta densa e ameaçadora, , nosso protagonista só tem o desejo de fugir daquela gigantesca moradia.  

Página de mangá em preto e branco com forte uso de sombras do livro A Serpente Vermelha, de Hideshi Hino. No painel superior maior, visto de uma perspectiva aérea, uma grande cobra escura está enrolada sobre uma viga de madeira no teto, projetando sua cabeça para baixo com a língua bifurcada para fora. Abaixo dela, um menino de olhos arregalados de medo observa a cena deitado em um futon sob as cobertas. No painel inferior esquerdo, um close-up destaca a cabeça da serpente com foco em seu olho felino e um balão de diálogo com reticências.
A Serpente Vermelha de Hideshi Hino

   Até que uma entidade espiritual no formato de serpente começa a habitar essa casa e transforma a vida dessas pessoas excêntricas em um pesadelo infernal.

  A serpente vermelha (Akai Hebi no original) é um mangá completo em apenas um volume e poblicado originalmente no Japão em 1983

Edit: A história Panorama do Inferno foi republicada em Pesadelos Completos Vol. 2, edição que compila mais histórias curtas e impactantes do mangaká


Fotografia colorida em plano médio do mangaká japonês Hideshi Hino em seu estúdio de trabalho. O autor aparece sorrindo levemente, com cabelos grisalhos longos, uma barba branca cheia e usando uma boina preta de estilo militar. Ele veste uma camisa preta e está com os dedos das mãos entrelaçados. Ao fundo, veem-se estantes de livros desfocadas, uma luminária articulada e ilustrações coloridas na parede.
Hideshi Hino


  Em 1985 o mangaká dirigiu o segundo filme da franquia de terror Guinea Pig, uma série de filmes japoneses de de terror extremo e gore, conhecidos pela violência gráfica e pela aparência realista dos efeitos especiais... Tão realista que, por um tempo, alguns acreditaram que se tratavam de Snuff Movie (filmagens reais de assassinatos ou outro tipos de violência).

  Seu filme se chamava Guinea Pig 2 - Chiniku no Hana (Guinea Pig 2 - Flores de Sangue e Entranhas). Na época chegou a circular um rumor de que o ator Charlie Sheen teria acionado o FBI ao assistir a fita, por ter acreditado tratar-se de uma Snuff  Movie.

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